As lentes Kanban para a Gestão de Produtos
Como a 'lente Kanban' e o conceito de Opções Reais ajudam a adiar compromissos, priorizar por seleção em vez de ranking e gerir o fluxo upstream na gestão de produtos.
Já passou pela sua cabeça que Kanban é uma maneira de ver? É, isto mesmo, Kanban é uma espécie de lente. Bom, vejamos como pode ser o uso desta lente para a gestão de produtos com Kanban.
Neste meu artigo eu escrevi bem brevemente sobre opções e gestão de portfólio, ou melhor, gestão de opções. E podemos sintetizar o conceito de gestão de opções como sendo Opções Reais. Opções Reais são as oportunidades que temos para tornar o nosso produto melhor. Cada opção tem um retorno e, digamos, um período temporal em que se pode explorar este retorno, ou seja, obter os ganhos da oportunidade.
A rigor, Opções Reais e Kanban são conceitos não relacionados; dito isto, a ideia de ver o mundo como uma coleção de opções com compromisso diferido permeia o Kanban.
O objetivo do Kanban é estabelecer um sistema puxado onde o compromisso é adiado. O que quer dizer isto? Quer dizer que vamos adiar o início de algum projeto ou demanda até o momento certo, ou seja, até o momento em que teremos os melhores e maiores ganhos com aquela oportunidade. Como parte para conseguir isso, o fluxo de trabalho é visto como uma sequência de etapas de descoberta de conhecimento, e em algum ponto dessa sequência há uma “linha” que representa o ponto após o qual uma entrega prometida foi feita a um cliente: qualquer coisa que cruze essa linha agora é um compromisso. Da mesma forma, qualquer coisa à esquerda dessa linha ainda é uma opção, algo que poderia ser potencialmente descartado (ou adiado) sem pagar uma penalidade significativa.
Quando uma equipe se envolve na discussão para descobrir onde está esse “ponto de compromisso”, muitas vezes descobre que existem diferentes níveis de comprometimento em seu fluxo de trabalho, representando diferentes pontos de decisão onde o trabalho pode ser potencialmente adiado para mais tarde, por diversos motivos diferentes. Um padrão típico para isso é separar o compromisso de implementar o trabalho do compromisso de entregá-lo a quem o solicitou, geralmente o cliente, que é conhecido no Kanban como “fluxo de trabalho de confirmação em duas fases”.
Nos últimos anos, é notório o avanço que a comunidade Kanban fez com a “Lente Kanban” para a parte anterior do “ponto de compromisso” e aplicou-a para descrever o processo muitas vezes “confuso” seguido para criar e desenvolver opções antes que elas possam ser comprometidas.
Este processo de “organização de opções” até ao ponto de compromisso precisa de ser gerido, tal como acontece com o processo para as entregar. Muito tem se avançado na gestão de fluxo antes do ponto de compromisso, chamado Upstream.
Um desenvolvimento mais recente, liderado por Patrick Steyaert e outros, tem sido a modelagem de todas essas atividades de pré-compromisso usando o que hoje é conhecido como “Kanban upstream”. Existe até um e-book escrito que pode ser baixado gratuitamente aqui.
A conexão entre “pensamento de opções” e Kanban é mais profunda, entretanto. Em seu livro “Lessons in Agile Management: On the Road to Kanban”, David J. Anderson dedica alguns capítulos a várias “anedotas e epifanias” que mostram como as Opções Reais afetaram seu pensamento, eventualmente abrindo caminho em vários aspectos da orientação Kanban.
Um exemplo disso é a orientação sobre priorização de pendências: “o ato de priorizar uma pendência em alguma forma de lista de classificação de pilha implica uma certa quantidade de olhares de bola de cristal para adivinhar o futuro. […] Os backlogs devem permanecer uma lista não ordenada. As decisões pull devem ser tomadas dinamicamente quando um kanban virtual está disponível e sinalizando capacidade.” Ou seja, um backlog pode ser visto como um conjunto de opções que podem ser selecionadas posteriormente, adiando a decisão para o momento apropriado. O Kanban então prefere a “seleção” à “priorização”.
Outra área onde o pensamento de opções inspirou a orientação Kanban é a avaliação e gestão de riscos. Com os backlogs vistos como uma coleção de opções (ou suposições não testadas), podemos então classificar essas opções de acordo com múltiplos critérios de mudança e risco de mercado, e usar essas informações para adiar itens de risco até o último momento possível.
Com isto podemos perceber o quão poderoso é utilizar a gestão de fluxo com o Método Kanban para melhorar a sua gestão de produtos, tornando o seu portfólio realmente mais atrativo e mais rentável.